“O jornalismo não acabou. Mas o crachá não é mais garantia de futuro”, Jairo Rodrigues

Com a ascensão da internet, das redes sociais, nós, jornalistas, fomos obrigados a criar um plano B. O jornal impresso, que durante décadas foi o principal pilar da profissão, passou a dar sinais claros de que seus dias estavam contados, ou que pelo menos a briga por espaço seria ‘feia’. Não por falta de importância, mas por mudanças profundas na forma como as pessoas consomem informação.

Portanto, hoje, se eu tivesse que dar um conselho aos jornalistas, especialmente aos que estão começando, seria simples e duro: pensem no plano A, no plano B e no plano C de carreira.
Não porque o jornalismo morreu, mas porque o mundo do trabalho está mudando rápido demais para permitir certezas.

Vivemos numa equação difícil: empresas de mídia pressionadas por faturamento, big techs controlando distribuição de conteúdo e leitores cada vez mais desinteressados em pagar por informação de qualidade. No meio disso tudo, sobra pouco espaço para quem gosta de escrever, apurar, investigar e contar boas histórias.

O problema não é apenas econômico. É cultural. A lógica do clique substituiu a lógica da apuração. O algoritmo passou a decidir o que importa. E o tempo da leitura profunda foi trocado pela rolagem infinita.

Isso não significa que o jornalismo deixou de ser necessário, pelo contrário. Nunca foi tão essencial. Mas, paradoxalmente, nunca foi tão desvalorizado. Talvez o erro tenha sido acreditar que bastava migrar para o digital. A internet não salvou o jornalismo; apenas mudou suas regras. E quem não aprendeu a jogar esse novo jogo ficou para trás.

Por isso, quando falo em plano A, B e C, não falo em desistir da profissão. Falo em ampliar o olhar sobre ela.

O jornalista hoje precisa ser mais do que repórter: precisa entender de tecnologia, de audiência, de negócios e de novos formatos. Precisa aceitar que o crachá não é mais garantia de futuro.

Num cenário em que trabalho humano tende a ser cada vez mais substituído por automação e inteligência artificial, a pergunta não é se haverá espaço para jornalistas, mas para quais jornalistas.

Talvez sobre espaço para quem souber se reinventar.
Talvez sobre espaço para quem entender que escrever bem não basta: é preciso saber onde, como e para quem se escreve.

O jornalismo não acabou.
Mas a ideia de que ele é um caminho seguro, sim. E talvez seja hora de sermos honestos com quem está entrando agora: amar contar histórias continua lindo, mas, sozinho, pode não pagar as contas.

Publicado por JAIRO RODRIGUES / jornalista e crítico de TV. Participou dos programas ‘A Tarde É Show’, na Rede Brasil de Televisão, ‘Olga’ na RedeTv! e ‘Saúde & Você’ na Record News e Band TV. Na Revista Grandes Negócios atua como diretor, editor-chefe e assina uma coluna que leva seu nome. Instagram: @jairorodriguesoficial