Influenciadores na TV: uma aposta certeira ou risco para a comunicação tradicional

Nos últimos anos, a televisão brasileira tem se rendido à força dos influenciadores digitais. Nomes que nasceram e cresceram nas redes sociais agora ocupam espaço nobre na grade televisiva, comandando programas, participando de quadros e, em alguns casos, até substituindo apresentadores tradicionais. Esse movimento, embora compreensível diante das mudanças no consumo de mídia, levanta uma série de debates: o que a televisão ganha com isso? E o que perde?
A força dos influenciadores: conexão direta com o público
A principal razão por trás da crescente presença de influenciadores na televisão está no alcance e na conexão direta que eles têm com o público, especialmente com as gerações mais jovens. Enquanto a TV enfrenta quedas de audiência e tenta se reinventar, os influenciadores digitais oferecem algo valioso: engajamento real e comunidades fiéis. Levar esses nomes para a televisão é, para muitos executivos, uma tentativa de renovar a audiência e tornar o conteúdo mais atrativo.
Além disso, os influenciadores dominam as linguagens da internet e do entretenimento rápido, o que pode ajudar a TV a adaptar seu formato a um novo tempo de consumo: mais dinâmico, informal e personalizado.
Os pontos positivos dessa estratégia
- Audiência jovem: A presença de influenciadores atrai um público que, muitas vezes, já não consome televisão de forma tradicional.
- Engajamento multiplataforma: Influenciadores têm o poder de levar o público da internet para a TV e vice-versa, criando um ciclo de visibilidade cruzada.
- Humanização e autenticidade: Muitos influenciadores são vistos como “gente como a gente”, o que pode dar aos programas um tom mais acessível e informal.
Mas nem tudo são likes: os desafios dessa tendência
Apesar dos benefícios, essa movimentação também traz riscos e polêmicas. Um dos principais pontos de crítica é o espaço cada vez menor para profissionais formados em comunicação, como jornalistas, radialistas e apresentadores que trilharam longas carreiras na TV. O domínio técnico, a ética profissional e a experiência adquirida nesses campos, muitas vezes, são substituídos por números de seguidores.
Além disso, nem todo influenciador está preparado para o ambiente televisivo, que exige timing, domínio de palco, improviso e responsabilidade diante de uma audiência ampla e diversificada.
O risco do conteúdo não filtrado
Outro ponto de atenção está na bagagem que os influenciadores levam das redes sociais. O conteúdo que produzem nas plataformas digitais nem sempre segue os padrões éticos ou editoriais da televisão. A liberdade que têm na internet precisa ser repensada no ambiente televisivo, onde há regras mais rígidas, impacto social mais amplo e maior responsabilidade com o público.
A dosagem do conteúdo é fundamental. Influenciadores que seguem uma linha mais polêmica, humor mais ácido ou opiniões controversas podem acabar gerando crises de imagem para emissoras que os contratam. Isso reforça a importância de se pensar não apenas em números, mas também no tipo de influência exercida por essas figuras públicas.
Em suma, o investimento da televisão brasileira em influenciadores reflete a busca por relevância em um cenário de mudanças aceleradas. Ainda assim, é necessário ponderar os ganhos e perdas dessa escolha. A convivência entre o novo e o tradicional pode ser enriquecedora, desde que haja preparo, responsabilidade e, principalmente, respeito à profissão da comunicação. Influência, por si só, não substitui técnica e ética e o desafio das emissoras é justamente encontrar o equilíbrio entre carisma digital e competência profissional.
JAIRO RODRIGUES é jornalista e crítico de TV. Participou dos programas ‘A Tarde É Show’, na Rede Brasil de Televisão, ‘Olga’ na RedeTv! e ‘Saúde & Você’ na Record News e Band TV. Na Revista Grandes Negócios atua como diretor, editor-chefe e assina uma coluna que leva seu nome. Instagram: @jairorodriguesoficial

