“Protagonismo não é autossuficiência”, Sibelle Figueirôa

Durante muito tempo, o mundo corporativo admirou o profissional que “dá conta de tudo”. Aquele que resolve, suporta pressão, encontra respostas, toma decisões e segue em frente sem demonstrar que precisa de ajuda. Essa imagem ainda é frequentemente associada à competência, à liderança e até ao protagonismo.

Mas existe uma diferença importante entre assumir a responsabilidade pelos próprios resultados e acreditar que precisamos construí-los sozinhos. Protagonismo é assumir responsabilidade pela própria trajetória. Autossuficiência é acreditar que não precisamos de ninguém para construí-la. E são coisas muito diferentes.

Recentemente, uma reflexão de Angela Duckworth, pesquisadora conhecida por seus estudos sobre determinação e perseverança, chamou minha atenção. Ao estudar pessoas de alto desempenho, ela identificou algo que contraria a narrativa do sucesso individual: pessoas extraordinárias sabem pedir ajuda e reconhecem a rede que contribuiu para suas conquistas.

Depois de uma trajetória profissional de mais de 20 anos, sendo mais de 16 deles no mercado financeiro, convivendo com empresas, executivos, líderes, equipes e diferentes modelos de negócio, essa conclusão faz muito sentido para mim. Quanto mais complexos se tornam os desafios, menos espaço existe para a ilusão de que uma única pessoa possui todas as respostas. No mercado financeiro, aprendi isso muito cedo.

Uma decisão aparentemente individual quase nunca é construída individualmente. Existem análises, riscos, cenários, especialistas, áreas diferentes, experiências anteriores e, principalmente, pessoas capazes de enxergar aquilo que talvez nós ainda não estejamos enxergando. O mesmo acontece dentro das empresas.

Os melhores resultados raramente pertencem a uma única pessoa. Por trás de uma grande negociação existe um time. Por trás de uma decisão estratégica existem diferentes conhecimentos. Por trás de líderes consistentes existem profissionais que tiveram espaço e segurança para questionar, discordar e apresentar outros caminhos. Por isso, talvez uma das competências mais importantes da liderança contemporânea seja saber dizer:

“Eu não sei.”, “O que você está enxergando que eu não estou?” “Preciso da sua ajuda.”

Essas frases não diminuem a autoridade de um líder. Quando existe segurança, elas a fortalecem. Porque liderança não deveria significar ser a pessoa que possui todas as respostas. Deveria significar criar as condições para que as melhores respostas possam surgir. E isso exige algo além de conhecimento técnico.

Exige consciência sobre as próprias competências e limitações, capacidade de escuta, abertura ao contraditório e humildade para reconhecer a contribuição do outro. Ao longo da minha carreira, aprendi com gestores, pares, clientes e equipes. Aprendi com profissionais mais experientes e também com pessoas que estavam começando suas trajetórias. Aprendi com quem concordou comigo e, muitas vezes, ainda mais com quem teve coragem de discordar. Essa rede não diminuiu meu protagonismo. Ela o ampliou.

Porque protagonismo não significa centralizar. Não significa controlar tudo. E definitivamente não significa fazer tudo sozinho. Significa assumir responsabilidade inclusive pela escolha das pessoas que estarão ao nosso redor. Talvez precisemos, inclusive, rever a maneira como contamos histórias de sucesso. Gostamos de identificar o fundador, o CEO, o executivo ou o profissional responsável por uma grande realização. É uma narrativa simples e poderosa. Mas organizações são sistemas. Resultados são coletivos. E grandes trajetórias também.

Existe mérito individual, evidentemente. Talento, disciplina, coragem, conhecimento e perseverança importam. Mas as pessoas certas podem multiplicar tudo isso. Depois de mais de 16 anos no mercado financeiro, uma das minhas maiores convicções é que nenhuma competência individual substitui a capacidade de construir boas relações, conectar conhecimentos e reconhecer quando outra pessoa pode tornar uma decisão melhor.

Talvez o profissional verdadeiramente protagonista não seja aquele que prova que consegue fazer tudo sozinho. É aquele que sabe o que pode fazer, reconhece o que ainda precisa aprender e constrói relações suficientemente fortes para chegar mais longe acompanhado. Porque protagonismo é assumir a responsabilidade pelo caminho. Autossuficiência é acreditar que ninguém precisa caminhar conosco. E, no mundo cada vez mais complexo em que estamos trabalhando, talvez essa seja uma das diferenças que mais importam.

Por: Sibelle Figueirôa