Gestão participativa transforma diferentes pontos de vista em novos produtos e soluções

Ao reunir experiências e conhecimentos diversos, modelo pode ajudar a identificar oportunidades

Um velho ditado afirma que várias mentes pensam melhor do que uma. Empresas que entenderam o poder desta máxima investiram na cogestão, um modelo compartilhado de governança. O objetivo é reunir pessoas com experiências, conhecimentos e perspectivas diferentes para encontrar soluções e novas ideias.

A relação entre participação e inovação aparece em pesquisas recentes. Um estudo publicado em 2023 pelo European Journal of Workplace Innovation, a partir de dados da pesquisa finlandesa MEADOW, analisou 1.106 empresas e identificou associação positiva entre a participação dos funcionários no desenvolvimento e o desempenho inovador das organizações.

A participação ampla foi a variável mais forte analisada, indicando que a colaboração de diferentes profissionais pode contribuir para a capacidade das empresas de desenvolver novos produtos e serviços.

Com mais de 20 anos de experiência em posições C-level, Jacinto Miotto Neto, sócio da Auddas consultoria empresarial, aponta a cogestão como uma forma de direcionar melhor a empresa diante de um mundo cada vez mais complexo.

Ao envolver no planejamento estratégico e nas revisões do negócio pessoas mais próximas dos clientes ou das atividades operacionais, a empresa amplia a capacidade de identificar oportunidades, problemas e possíveis soluções.

“Fica difícil, hoje, apenas no nível do CEO ou da diretoria, conseguir entender todos os problemas e dar o melhor direcionamento para cada situação, para cada oportunidade. Quem está mais perto do problema, mais perto do cliente, pode ter uma ideia melhor do que está acontecendo e sugerir uma ação talvez mais indicada”, resume Jacinto.

Diferentes perspectivas podem alimentar a inovação

A participação de diferentes públicos também pode funcionar como fonte de inovação. No livro best seller do Wall Street Journal, Humanocracia, Gary Hamel e Michele Zanini apresentam exemplos de empresas que romperam com estruturas excessivamente hierarquizadas e criaram mecanismos para incorporar ideias de funcionários, consumidores e outros públicos.

Um dos casos relatados é o da marca 3M, que desenvolveu uma cultura totalmente aberta à inovação. A empresa abriu seus laboratórios para receber clientes e entender necessidades concretas que poderiam ser transformadas em novos produtos e como resultado conta com mais de 100 mil patentes.

Ao descobrir que cirurgiões cortavam e esterilizavam fitas adesivas comuns para fechar feridas e incisões, reuniu profissionais especializados em infecção hospitalar para desenvolver um material adequado, dando origem às primeiras fitas médicas oficiais da empresa, em 1963.

A lógica também aparece na siderúrgica norte-americana Nucor, conhecida por uma estrutura gerencial de baixo para cima e por mecanismos de participação dos funcionários. Segundo os autores, a cultura de gestão participativa e brainstorming contribuiu para o desenvolvimento de uma tecnologia que reduziu em 95% o consumo de energia e o tempo necessário para laminação.

Para Jacinto, a diversidade de perspectivas é justamente um dos principais ganhos do modelo. Funcionários, clientes, membros de conselhos e investidores possuem diferentes experiências e bases de conhecimento, o que permite observar o negócio por ângulos que poderiam passar despercebidos em uma gestão mais centralizada.

“Você consegue reunir várias visões e entender, na perspectiva do cliente, na perspectiva do investidor, quais seriam as oportunidades e os problemas a tratar”, explica.

Participação com método e governança

Ampliar a participação, porém, não significa eliminar a liderança ou transformar toda decisão em um processo coletivo. Para funcionar, o modelo precisa estabelecer claramente como as diferentes contribuições serão incorporadas à gestão.

Segundo Jacinto, uma das formas de evitar excesso de reuniões e perda de agilidade é estruturar a participação por meio de uma metodologia. Em um planejamento estratégico, por exemplo, as percepções dos participantes podem ser coletadas individualmente, por formulários, entrevistas ou questionários. Depois, as diferentes visões são compartilhadas e debatidas em reuniões específicas, preferencialmente com um mediador.

Na etapa seguinte, os participantes podem ser divididos em grupos responsáveis por temas determinados, até chegar a propostas de ação para cada objetivo. Uma reunião final reúne todos os envolvidos para discutir e ajustar o plano.

“A inovação surge do choque de ideias distintas, de visões diferentes”, afirma Jacinto. Para ele, estimular pessoas com diferentes experiências a olhar para os mesmos problemas pode gerar insights e novas possibilidades para o negócio.

A Auddas utiliza o método OKR (Objectives and Key Results) como apoio à organização do planejamento estratégico. A proposta, porém, não é criar uma fórmula única, mas estabelecer processos que permitam transformar participação em decisões.

Para empresas que desejam começar, Jacinto defende que a cultura participativa seja construída gradualmente. “A cultura organizacional se constrói fazendo”, afirma. Na prática, isso significa começar a envolver as pessoas, estabelecer uma rotina de participação e aprimorar o processo ao longo do tempo.

Assim, a cogestão não representa a perda das rédeas do negócio, mas a ampliação das lentes usadas para enxergá-lo. Ao criar canais estruturados para ouvir quem está próximo dos clientes, dos processos e dos desafios cotidianos, a empresa pode transformar diferentes perspectivas em informação para decidir melhor e, consequentemente, encontrar novas respostas para problemas antigos e oportunidades antes pouco visíveis.

Bia Villas Bôas é jornalista, assessora de imprensa e colunista, com atuação especializada em comunicação estratégica e reputação digital. Colabora com veículos nacionais e desenvolve projetos de conteúdo para marcas, personalidades e instituições. Também integra iniciativas do ecossistema de mídia e comunicação no Brasil.

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