Hoje incendiária, amanhã bombeira? Por Neiva Dourado Mendes

Quando criança, ouvia meu pai repetir uma frase que me apavorava: “Hoje incendiária, amanhã bombeira”. A frase tinha uma intenção educativa. Era uma forma de dizer que as pessoas mudam, amadurecem, abandonam excessos e, muitas vezes, passam a defender exatamente aquilo que antes combatiam. Eu escutava de outra forma.

Para mim, havia ali uma ameaça declarada, uma espécie de “praga”. Afinal, eu não era exatamente uma criança “fácil”. Sempre questionei tudo, desconfiava das respostas prontas, odiava ouvir “porque sim” a cada questionamento. Olhando para trás, imagino o trabalho que dei aos meus pais. Especialmente em uma época em que se esperava que crianças obedecessem mais e questionassem menos.

Eu queria afastar a possibilidade de me tornar alguém que desistiria de questionar, que deixaria de acreditar em ideias inovadoras. Alguém que, com o passar dos anos, se acomodaria em certezas antigas, perderia a curiosidade e trocaria a inquietação pela conformidade. Por causa desse receio, passei a vida inteira vigilante para não me tornar intolerante, para não perder a capacidade de aprender e não abandonar causas que considero fundamentais, como o combate às desigualdades, a defesa da liberdade, da democracia e do respeito às diferenças.

Hoje, percebo algo curioso, muitas pessoas parecem mais impressionadas com a minha idade face ao meu posicionamento e com aquilo que faço. Ficam surpresas porque continuo estudando, cursando neurociência, acompanhando novas tecnologias, falando sobre inteligência artificial, porque fundei uma empresa aos 56 anos e continuo dando aulas, escrevendo, pesquisando e me interessando por assuntos novos.

Como se a curiosidade tivesse prazo de validade e o aprendizado fosse um privilégio da juventude. Como se envelhecer significasse, obrigatoriamente, reduzir o tamanho da própria vida. A neurociência mostra exatamente o contrário.
Durante muito tempo, acreditou-se que o cérebro envelhecia de forma rígida e irreversível. Hoje sabemos que ele mantém sua capacidade de adaptação ao longo de toda a vida, chamamos isso de neuroplasticidade.

O cérebro continua criando conexões, aprendendo, reorganizando conhecimentos e desenvolvendo novas habilidades, mas existe uma condição, ele precisa ser estimulado. Curiosidade não é apenas uma característica de personalidade, é também um exercício cerebral. Aprender algo novo, questionar crenças antigas, conhecer pessoas diferentes, explorar ideias desconfortáveis e permanecer intelectualmente ativo ajuda a manter circuitos neurais funcionando.

Talvez seja por isso que algumas pessoas envelheçam mantendo a mente aberta, enquanto outras se tornam cada vez mais rígidas. Não é apenas uma questão biológica, é também uma escolha comportamental.

Nosso cérebro gosta de economizar energia, ele adora transformar opiniões em certezas, hábitos em automatismos e crenças em verdades definitivas. Pensar exige esforço, questionar exige coragem, mudar de ideia exige humildade.
O verdadeiro envelhecimento não acontece quando surgem os cabelos brancos, ele talvez aconteça quando paramos de nos surpreender e deixamos de fazer perguntas, quando trocamos a curiosidade por convicções permanentes e acreditamos que já sabemos o suficiente.

Hoje olho para aquela frase do meu pai de forma diferente, ela deixou de representar um medo e tornou-se um alerta. Não sobre uma possível mudança de opinião, porque mudar de perspectiva faz parte da inteligência, mas sobre perder a capacidade de refletir. Existe uma enorme diferença entre amadurecer e se acomodar.

Continuo acreditando que o mundo precisa de ideias novas, de pessoas dispostas a aprender e de gente que não tenha medo de rever suas próprias certezas. Sigo com a crença na diversidade humana, que a tecnologia pode melhorar vidas e que liberdade nunca deveria sair de moda.

Seguirei dessa forma, estudando, buscando novas possibilidades porque talvez a maior forma de juventude que exista seja esta: manter viva a capacidade de se encantar com aquilo que ainda não sabemos.

Publicado por Neiva Dourado Mendes / fundadora e sócia da Blue6ix Tecnologia, empresa pioneira na América Latina em soluções de interaction analytics, experiência do cliente aplicada ao comportamento humano, onde atualmente atua como Presidente do Conselho.

Com mais de 40 anos de carreira, construiu trajetória em empresas como Portugal Telecom, Contax, Dedic GPTI, CSU CardSystem e Teleperformance, atuando nas áreas de operações, qualidade, tecnologia, desenvolvimento de pessoas e experiência do cliente, incluindo atuação internacional em Lisboa, Portugal.

Fundou a Blue6ix aos 56 anos e hoje dedica-se ao estudo de neurociência, comportamento humano, consumo e os impactos da inteligência artificial nas relações entre empresas e pessoas.

É analista de sistemas, professora, palestrante e articulista do Jornal Empresas & Negócios.