Opinião: Quando a notícia fere e o limite da ética é esquecido

Começo esse meu texto dizendo que, sou jornalista há mais de nove anos. Tempo suficiente para entender que essa profissão vai muito além de manchetes, números ou engajamento.
O jornalismo nasceu para informar com responsabilidade, dar voz a quem precisa ser ouvido e tratar histórias com respeito e sensibilidade. Mas, infelizmente, a cada dia que passa, vejo essa essência sendo deixada de lado por alguns profissionais da comunicação, e isso entristece.
Quando a busca por likes fala mais alto que a ética, algo se perde no caminho. E o que se perde não é pouco: é a credibilidade, é o compromisso com a verdade, é o respeito pela dor do outro. Ser jornalista é, antes de tudo, entender o peso da palavra e o impacto que ela carrega. A missão do jornalismo nunca foi, e nunca será, banal.
No turbilhão da informação em tempo real, uma pergunta urgente precisa ser feita: quando o jornalismo deixa de cumprir sua missão e passa a causar dor?
O recente caso do menino Chico e sua mãe Manu, no Rio de Janeiro, escancarou uma ferida incômoda, não apenas pela tragédia em si, mas pela forma como ela foi explorada. Um acidente que tirou duas vidas deveria, antes de qualquer manchete, ser tratado com respeito. Mas o que se viu foi uma corrida por declarações, por exclusivas, por cliques.
Em meio ao luto, o pai da criança recebeu ligações insistentes de colegas jornalistas. Perguntas frias, objetivas, quase mecânicas: horário do velório, detalhes do ocorrido, possibilidade de entrevista. Do outro lado da linha, não havia apenas uma fonte, havia um pai devastado.
É nesse ponto que o jornalismo precisa se olhar no espelho.
A profissão que nasceu para informar, dar voz e promover justiça social não pode se permitir perder sua essência. Quando a dor do outro vira pauta sem filtro, sem cuidado, sem humanidade, algo se rompe. E o que se rompe não é apenas a confiança do público, é a dignidade da própria prática jornalística.
A busca por engajamento não pode justificar a perda de empatia. Algoritmos não podem ditar o tom da abordagem. Likes não podem valer mais do que vidas. O jornalismo sério não invade o luto, ele respeita o silêncio. Não pressiona, acolhe. Não transforma sofrimento em espetáculo, contextualiza, informa e, acima de tudo, humaniza.
Casos como o do menino Chico não devem servir apenas como notícia. Devem servir como alerta. Um chamado urgente para que jornalistas, veículos e profissionais da comunicação revisitem seus valores e se perguntem: estamos informando ou estamos explorando?
Que as emissoras, os jornais, os portais, os veículos de comunicação, especialmente nós jornalistas, aprendamos de uma vez por todas que credibilidade não se constrói na velocidade da publicação, mas na profundidade do respeito. E sem respeito, não há jornalismo, há apenas ruído.
Publicado por JAIRO RODRIGUES / jornalista e crítico de TV. Participou dos programas ‘A Tarde É Show’, na Rede Brasil de Televisão, ‘Olga’ na RedeTv! e ‘Saúde & Você’ na Record News e Band TV. Na Revista Grandes Negócios atua como diretor, editor-chefe e assina uma coluna que leva seu nome. Instagram: @jairorodriguesoficial

